sexta-feira, 25 de março de 2011

Nordeste em prol da sustentabilidade

Região Nordeste


Área: 1.548.672 km²
Estados: Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão
População residente:45.448.490
População economicamente ativa: 21.170.684

A divisão do Brasil em capitanias hereditárias, feita pela Coroa portuguesa a partir de 1532, foi a primeira tentativa de colonizar o País. Das doze capitanias — doadas a membros da pequena nobreza portuguesa, a comerciantes e gente ligada às viagens marítimas do século XVI —, apenas prosperaram a de São Vicente, no litoral paulista, e a de Pernambuco, cujo donatário era Duarte Coelho.

O primeiro ciclo econômico que ocorreu no Nordeste do País se desenvolveu na capitania de Pernambuco: o da cana-de-açúcar. E deixou grande passivo ambiental, pois a monocultura dos canaviais sacrificou a Mata Atlântica do litoral e fez a Região ficar ainda mais seca.

A maioria das terras nordestinas fica no semi-árido. E, dentro do semi-árido, o ecossistema mais encontrado é a caatinga. A palavra é de origem indígena e quer dizer mata branca. A caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional: são 910 mil km², área três vezes maior do que a da Itália.

Nesse lugar de pouca água, só vive quem se adapta. Homens, vegetais e animais criam, o tempo todo, mecanismos de sobrevivência. Na caatinga, predominam arbustos e cactos, além de pequenas árvores. Na seca, a vegetação perde as folhas para transpirar menos. As folhas desenvolvem uma camada de cera que evita a perda de água. O cacto facheiro fornece água e produz fibras que alimentam o gado e servem para fazer caibros que sustentam as casas. As folhas do umbuzeiro — que dá uma fruta ótima para refrescos — alimentam o gado, e sua raiz fornece água e uma polpa nutritiva.

As raízes da caatinga têm dificuldades de penetrar no solo rochoso e, por isso, se abrem para cobrir uma área maior e absorver mais água. Quanto às sementes, podem ficar anos no solo, aguardando a chuva para germinar. A maior proteção do solo do semi-árido é a vegetação da caatinga. Sem ela, o Nordeste brasileiro seria um deserto. Apesar da aridez, é possível explorar os recursos naturais da caatinga sem destruição.

As principais atividades do Nordeste são: agricultura (com ênfase na fruticultura irrigada), pecuária, serviços, indústrias e turismo. A extrema desigualdade social é a marca registrada em todas essas atividades. O Nordeste é a região mais pobre do País. Sua renda per capita é a mais baixa, correspondendo a menos da metade da verificada na região Sudeste.

A seca é o maior desafio para o desenvolvimento sustentável na Região. Pernambuco tem a situação mais crítica, pois consome, no seu abastecimento, mais de 20% da disponibilidade total da água que possui.

Nos últimos quinhentos anos, foram registradas 76 grandes secas no Nordeste. As frentes de trabalho abertas nas regiões mais afetadas são apenas um paliativo. Estudiosos dos problemas nordestinos afirmam que os efeitos da seca e da miséria continuarão, se não for feita uma reforma agrária. Outras soluções para mitigar os estragos das estiagens são uma gestão racional e adequada dos recursos hídricos e a ampliação das reservas estratégicas de água.

Há vários anos, existe um projeto de transposição do Rio São Francisco, que teria parte de suas águas desviada para melhorar as condições de vida no sertão nordestino. Muitos ecologistas são contrários a esse projeto, afirmando que a transposição não resolverá o problema e causará grande impacto ambiental na região banhada pelo Rio São Francisco. Os que têm essa opinião dizem que melhor seria criar projetos adequados de irrigação, sem necessidade de transpor bacias. Aliás, hoje, na Região, já existem conflitos em torno do uso da água. De um lado, estão as pequenas comunidades que sofrem com a falta desse bem natural; do outro, os grandes proprietários, que usam fartamente a irrigação em suas lavouras.

Causada pela seca, a desertificação é outro desafio à sustentabilidade. No Nordeste, ela atinge, em níveis diferentes, quase um milhão de km2. Em 1999, representantes de mais de 150 países se reuniram no Recife, numa conferência das Nações Unidas que discutiu saídas para a desertificação. Uma das recomendações: transformar a estrutura agrária das regiões desertificadas, impedindo migrações para as cidades, que se tornam pólos de desequilíbrios.

O turismo é uma das atividades que mais crescem no Nordeste. A chamada indústria sem chaminés gera empregos e atrai visitantes do Brasil e de outros países. Eles vêm em busca das belíssimas praias — e também de formações naturais típicas, como os Lençóis Maranhenses — presentes em quase todo o litoral nordestino. Mas, para haver turistas, é preciso que se tenha a natureza em bom estado. A maioria das cidades costeiras não trata seus esgotos, o que compromete a qualidade dos rios e do mar. E os manguezais — os berçários da vida marinha — estão sob ameaça por causa da expansão urbana, de complexos turísticos agressivos com relação ao meio ambiente e do despejo de poluentes e de lixo.

Por outro lado, observa-se hoje, tanto no sertão como no litoral nordestinos, uma tentativa de cuidar da nossa “casa” comum: a natureza. Para proteger os recifes de coral, as praias e os manguezais nos litorais sul de Pernambuco e norte de Alagoas, foi criada a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. Em Porto Seguro (BA), foi criado o primeiro parque municipal marinho do País: o Parque do Recife de Fora, regulamentando o número de visitantes e permitindo apenas a pesca não-predatória de polvo.

Uma das maiores riquezas do Nordeste é a sua cultura. Em toda a Região, é possível encontrar uma música popular rica e diversificada, que projeta artistas nacional e internacionalmente; um artesanato expressivo e variado, arquitetura e artes plásticas com soluções novas e criativas; festejos populares, como o carnaval, na Bahia, no Recife e em Olinda; as encenações religiosas de Fazenda Nova (PE); e tantas outras manifestações que atraem visitantes e resgatam valores de uma população que, apesar de enfrentar duras realidades, não perde o humor e a alegria de viver.


Projetos e Experiências

Bancos comunitários de sementes

Os bancos de sementes comunitários são uma parceria entre sindicatos de trabalhadores rurais, associações de produtores e a ONG Assessoria e Serviços a Projetos de Agricultura Alternativa (Aspta) e constituem uma tentativa de garantir a oferta de sementes para os pequenos produtores e conservar a biodiversidade na região Agreste da Paraíba.

Os bancos de sementes procuram fazer com que as famílias de pequenos produtores rurais sejam capazes de produzir e conservar suas próprias sementes ao longo de todo o ano, com uma gestão coletiva do estoque. No início dos anos 90, já existiam alguns bancos na Paraíba. Em 1995, o fórum Articulação do Semi-árido Paraibano liderou um programa de formação e consolidação de 113 bancos de sementes. As sementes foram fornecidas por um programa do Ministério da Agricultura.

A região Agreste fica entre o interior semi-árido e as plantações de cana ao longo do litoral nordestino. Nos roçados tradicionais do Agreste, a diversidade de plantas sempre foi grande, pois, quanto mais houver o que plantar, maior a segurança alimentar das famílias. Porém, a necessidade dos agricultores de se adaptar ao mercado fez com que vários tipos de feijão fossem abandonados. Os agricultores estavam plantando apenas as espécies de feijão mais valorizadas.

Para não se perder a diversidade genética, foi feito um diagnóstico dos feijões em seis comunidades representativas do Agreste. Isso permitiu o levantamento de 67 variedades de feijão de três espécies, valorizando sua conservação e distribuindo suas sementes aos sócios dos bancos comunitários.

A luta por um rio

No sul da Bahia, dez municípios se juntaram em torno da bacia do principal rio da região: o Cachoeira. Nessa parceria, estão envolvidas a população, as prefeituras e a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), que tentam recuperar uma bacia extremamente degradada e que, apesar disso, fornece água e sustento para milhares de pessoas. O Programa Bacia do Rio Cachoeira (PBRC) trabalha com qualidade da água, construção de aterros para o lixo, criação de viveiros de mudas e educação ambiental.

As cidades envolvidas são: Ilhéus, Itabuna, Itapé, Ibicaraí, Floresta Azul, Santa Cruz da Vitória, Firmino Alves, Itororó, Itaju da Colônia e Jussari.

Bacia é toda a área de influência de um rio e seus afluentes. É importante preservar toda a bacia, e não somente uma parte dela, para que as ações de conservação se integrem e sejam eficientes. O Rio Cachoeira é formado pelos rios Salgado e Colônia. Sua bacia tem 4.600 km2.

Em Itororó, uma epidemia de cólera trouxe, há alguns anos, muitos problemas. Por isso, foi construído um sistema de tratamento de esgotos. A água passa por diversas lagoas e processos químicos. Assim, ela vai clareando e retorna limpa ao rio. Após a implantação desse sistema, os responsáveis pelo hospital local verificaram que diminuiu drasticamente o número de doenças transmitidas pela água.

Em Itaju da Colônia, os pescadores se queixavam de que toda a água ia para a irrigação das grandes fazendas. E o rio não tinha mais peixes. A prefeitura implantou quatro tanques para piscicultura. Esses tanques são administrados pelos pescadores e têm um total de um hectare de lâmina d’água, com muitas carpas, tambaquis e tilápias. A previsão é produzir dez toneladas de peixe por ano. Cursos de piscicultura são dados aos moradores.

Sustentabilidade para água e esgoto

No interior do Ceará, desenvolve-se uma tentativa de dar sustentabilidade financeira para abastecimento de água e tratamento de esgoto em pequenas localidades. São 45 sistemas distribuídos em vinte cidades, numa área de 30 mil km2, no noroeste do Estado, beneficiando cerca de 45 mil pessoas.

No litoral, a atividade principal é a pesca; no sertão,a agricultura e o artesanato da carnaúba; e, na serra, perto do Piauí, a agricultura. A maioria da população é pobre e trabalha no setor informal. A mortalidade infantil é grande. Não há linhas regulares de ônibus entre as cidades nem estrada pavimentada. Quando chove muito, as comunidades ficam isoladas.

O sistema de água faz captação, tratamento, cloração, reservatório elevado e distribuição de água para as ligações hidrometradas dos usuários. O esgotamento sanitário tem rede coletora, com lagoas de estabilização (com filtro), rede coletora com fossas comunitárias (com filtros anaeróbicos) e fossas sépticas individuais.

As associações comunitárias formaram o Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), associação civil sem fins lucrativos responsável pela administração e manutenção do abastecimento de água e tratamento de esgoto. Cada comunidade tem um operador treinado, responsável pelo funcionamento diário do sistema e que faz a leitura dos hidrômetros. As contas são repassadas para as associações comunitárias que executam a cobrança. Os custos devem ser pagos com recursos arrecadados pelas tarifas.

Preservação no Litoral e no Sertão

Em Natal, fica o segundo maior parque urbano do Brasil, com 1.172 hectares: o Parque das Dunas. Abriga as últimas áreas de Mata Atlântica no Rio Grande do Norte, estado em que restam apenas 2% da Mata Atlântica original.

Cerca de 80% da cobertura vegetal se compõe de mata de duna litorânea. Nas trilhas, o visitante pode ver de perto grandes dunas de areia, vegetação de restinga e de caatinga, arbustos e árvores típicas da Mata Atlântica. São mais de 270 espécies de árvores, além de bromélias, trepadeiras e orquídeas. Ali são realizadas pesquisas científicas, educação ambiental e turismo ecológico. Em 1993, o parque foi considerado pela Unesco parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e Patrimônio Natural da Humanidade.

As dunas captam a água da chuva como uma grande esponja que absorve e filtra a água. Essa água realimenta o lençol subterrâneo responsável pelo abastecimento de um quarto da população de Natal.

A caatinga é um ecossistema curioso e diferente. Ora se apresenta como uma floresta de árvores pequenas e tortuosas, ora como formação arbustiva e com escassa vegetação rasteira. Na seca, os galhos nus se projetam contra o céu, e tudo fica cinzento e árido. Mas assim que caem as primeiras chuvas do inverno nordestino (que acontece no meio do ano), a caatinga se veste de verde.

A caatinga é importante não só do ponto de vista ambiental, mas também histórico. Foi palco de lutas entre cangaceiros, soldados e coronéis. Nela, viveram figuras como Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Lampião e Corisco. Em 1928, foi criada a Estação Ecológica do Seridó, para preservar a caatinga do Rio Grande do Norte. São 1.166 hectares de terra em Serra Negra do Norte.

As principais atividades desenvolvidas pela Estação de Seridó são: experimentos de manejo sustentado da caatinga, reintrodução de emas e cotias, jardim de ervas medicinais, criação de abelhas nativas e minhocas e produção de mudas com sementes nativas. Também são dados cursos para capacitar professores e palestras para visitantes.

Um parque vivo no litoral cearense

Criado em 1980, o Parque Adahil Barreto, em Fortaleza (CE), carinhosamente chamado pelos cearenses de Parque do Cocó, é um ponto de convivência da população com a natureza. Lá é realizado o Parque Vivo.

Fruto do convênio entre a Prefeitura de Fortaleza e a Universidade Federal do Ceará, o projeto funciona desde 1993, promovendo videodebates, oficinas de arte e educação e, principalmente, passeios nas trilhas, permitindo que crianças e jovens conheçam mais detalhadamente o ecossistema. A floresta do parque tem mangueiras, laranjeiras, palmeiras imperiais e madeiras nobres, como o pau-brasil.

Uma outra atração são os passeios de barco no Rio Cocó, que tem cerca de 45 km de extensão. Sua bacia corresponde a 2/3 da área do município de Fortaleza, e seu manguezal tem aproximadamente 375 hectares de vegetação exuberante. A fauna e a flora se desenvolvem a partir do estuário do rio, ou seja, onde a água doce encontra a água salgada do mar e forma uma região de água salobra, propícia ao surgimento de vegetais e animais.

As trilhas são feitas de maneira organizada, para não haver depredação nem acidentes. Os grupos são de, no máximo, 25 pessoas, que andam com dois guias. Os visitantes caminham na beira do Rio Cocó e no meio da floresta.

Em Prado, ecologia e cidadania

Prado fica no extremo sul da Bahia, entre os parques nacionais de Abrolhos, do Monte Pascoal e do Descobrimento. O município tem 84 km de praias e vive principalmente do turismo. Em 1996, foi criada a Associação Pradense de Proteção Ambiental (Appa), que trabalha com campanhas de sensibilização e mobilização social e ambiental, junto com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Proprietários de hotéis e pousadas, professores, estudantes, comerciantes e biólogos se juntaram para fazer da cidade um núcleo de educação ambiental e práticas sustentáveis. Alguns exemplos: há três anos, no Dia Mundial de Limpeza de Praias, mais de trezentas pessoas catam lixo na orla marítima. No verão, a patrulha ecológica da Appa percorre as praias distribuindo folhetos e orientando o turista a recolher o lixo que ele produz. A Patrulha da Tartaruga é formada por sessenta estudantes treinados pelo Projeto Tamar e monitora a desova das tartarugas no litoral do município. Os vigilantes mirins do meio ambiente são crianças carentes que limpam praias e praças; eles têm atendimento médico e dentário e recebem uma cesta básica mensal.

Há quatro anos, Prado realiza o Fórum de Avaliação de Proteção Ambiental no Extremo Sul da Bahia, com especialistas do Estado e do País. Essa mobilização ajudou a criar na região o Parque Nacional do Descobrimento e a Reserva Extrativista do Mar e Mangue do Corumbau. A Appa luta também pela criação de uma área de proteção ambiental no município, que, junto com os parques nacionais da região, formará um corredor ecológico.



Referencia: Suplemento da Revista Senac e Educação Ambiental. 

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